Samba e Amor - Agora, por mim.

Posted: domingo, 8 de maio de 2011
"Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna, a nossa cama reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão"

Essa música de Chico Buarque é uma verdadeira obra de arte. É verdade! Tirando o clichê e a redundância da minha informação, é sempre bom lembrar que essas obras podem ser retratos e reinterpretadas sempre. E eu faço samba e amor até mais tarde...

Faço samba e amor até mais tarde quando me delicio com a noite, quando consigo escutar o silêncio que ela me proporciona, quando consigo enxergar as estrelas no céu e as pessoas no chão. Faço samba e amor até mais tarde quando escuto as buzinas dos carros que passam pela madrugada a dentro, dos que voltam dos bares, trabalhos e motéis.

Faço samba e amor até mais tarde quando escrevo esses textos diários, quando a noite me guia e me ilumina para as palavras. Eu faço samba e amor até mais tarde quando escuto as músicas que me encantam, quando toco meu violão, quando digo "Eu sou aquele amante apaixonado,que curte a fantasia dos romances, que fica olhando o céu de madrugada, sonhando abraçado à namorada".

Eu faço sambe a amor até mais tarde quando tomo minha cerveja no bar com meus amigos, quando a conversa rola até tarde e me faz abrir sorrisos largos. Eu faço samba e amor até mais tarde quando deito com meu amor na minha cama, quando aprecio seu sorriso e a encosto no meu peito.

Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã, e tenho minhas olheiras e meu bocejo eterno, que me fazem ser quem sou.



Pintaram as Flores

Posted: sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Foi num dia de sol que vi pela primeira vez. Nada precisavam me dizer de como conseguíamos enxergar o amarelo da luz. Nada me diziam sobre como não precisar tapar os olhos para fitar a circuferência iluminada. Mas mesmo assim eu via.

Foi com as mochilas nas costas, o colorido na roupa, as mãos dadas e os punhos fechados que vi pela segunda vez. Foi caminhando sob a vida que percebi quão azul podem ser as nossas verdades, mesmo que esse azul só as faça esconder. Foi com esse azul que pintei as minhas mãos, na fúria contra a opressão e na hora de pintar nas paredes dos castelos o título: "Liberdade".

Foi com a taça na mão, com a cachaça na boca que percebi que a cegueira é diferente. Foi perambulando sobre tua face que percebi que antes não enxergava. Foi vendo teus olhos, teus dentes e tuas vestes, que percebi que o que te ilumina é ainda mais belo do que o que me colore. O que te clareia é ainda mais bonito do que a escuridão dos sussuros de prazer.

E era no vinho de todo dia, no todo dia de todo mês, que percebi que o mês de todo ano era sempre tão diferente da chuva que caía com sol, quando tudo era só solidão. Quando a solidão era quebrada como taças em um brindar feliz. Quando se bebiam os restos, o suor e as salivas...

Foi num dia vermelho, de sangue e de luta, que percebi quão importante era caminhar. Foi hasteando minha bandeira que conheci a beleza de arriscar-se no precipício da vida. Foi misturando os meus símbolos que enxerguei a possibilidade de tentar, de experimentar, de ousar e de voar.

Mas foi no verde do mato, da fumaça que lava o rosto, nas flores do nosso jardim, que percebi que tudo pode ser mais uma vez fingido, oprimido e repitido. Foi assim que saí da escuridão onde me encontrava. Foi assim que pintaram as flores deixando respingar suas cores na calçada, e deixando cair minha crença na vida, fazendo perceber que tudo não passava de uma tela, das cores e de um pincel.

Mais Fácil

Posted: domingo, 21 de novembro de 2010
Pensei que seria mais fácil conviver com uma nova paixão, pensei que depois dos anos de experiência, depois das brigas e confusões de relações anteriores fossem me dar a maturidade necessária para conviver com certas inquietações. Ledo engano. É que há coisas nas nossas vidas que não adiantam a gente se dizer, a gente, na maioria das vezes, não se comanda. O coração comanda a mente, quando a mente deveria comandar o coração; e a mente comanda o coração quando o coração deveria comandar a mente. As pernas nos obedecem quando não deveria, e as mãos não nos obedecem quase nunca.

Achei que seria fácil conviver com palavras bonitas novamente, com gestos grandiosos de grande demonstração de afeto, pensei que seria fácil conviver com o ciúme. Pensei que seria fácil suportar as lembranças. Mas não é.

A verdade é que a gente tem uma mania danada de procurar a infelicidade dentro da felicidade. A gente tem uma sanha, uma necessidade de nos inquietarmos e de nunca estarmos em harmonia com o momento de alegria. A gente vive sempre cavando o pênalti quando deveríamos marcar o gol.

A gente vive achando que as coisas podem ser pior, quando deveríamos nós mesmos fazê-las serem melhores. E a gente vive com os olhos perdidos e a boca fechada, costurada, pra engolir o veneno que nosso corpo produz.

E todos os caminhos levam ao mesmo lugar e uma certeza de que o caminho não está certo. Mas existe pelo menos uma esperança de que com o tempo alcancemos e passaremos pelos atalhos certos para enfrentar nossos monstros interiores. E enquanto isso não chega, vivemos nos digladiando interiormente, buscando a solução em monólogos e diálogos, que nos façam expulsar essa tristeza que nos dá num domingo como o de hoje.

Ainda Consigo me Emocionar

Posted: segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Esse texto tá na agulha há um bom tempo, mas a vontade de escrever sobre outras coisas e o tempo me fizeram empurrá-lo com a barriga até o dia de hoje. E não é que é essa vontade de empurrar as coisas com a barriga e esse tempo corrido dos nossos dias que faz a gente perder uma capacidade inerente a todo homem e toda mulher? A capacidade de se emocionar com aquilo que nos cerca, com olhos, ouvidos e coração.

Faz uns sete meses que eu estava em Petrolina e em Juazeiro também, em meio à campanha de eleições do Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Pernambuco, atravessando o Rio São Francisco num barco e parei pra pensar quanto tempo nós perdemos ou em quanto tempos esquecemos de olhar o que pode falar ao coração. Em meio aos pensamentos de cálculos eleitorais, de quantas salas iria passar, ou de quantos votos iríamos ter nas urnas de Letras; consegui olhar para o Rio São Francisco e admirar a beleza daquela magnífica obra de arte. Em meio à fome batendo e o aborrecimento de ter que carregar a mala pra todo lado, consegui parar pra observar o senhor que tocava violão no barco, com os olhos sofridos e pedindo uma ajuda pra mostrar o seu "talento" e tentar "distrair" os tripulantes.

Voltando dessa mesma viagem, parei pra observar o São Francisco lá de cima, e o quanto de terra que esse mundo tem pra ser plantada e pra ser "morada". Mesmo que as confusões referentes à apuração daquela eleição só me fizessem pensar nisso. E tive a certeza: "ainda consigo me emocionar".

Ainda consigo me emocionar ao ver "o menino preto de camisa vermelha doando cola ao menino branco de camisa branca", como disse meu amigo Walter. Ainda consigo me emocionar quando vejos os aleijados que pedem pelas ruas , com os bêbados que pedem um cigarro e as mulheres que choram seus maridos nas noites de sexta-feira.

E mesmo que o mundo me diga que isso é fraqueza e que a gente deve encarar "a vida como ela é", eu me nego, me nego a aceitar que a vida seja só essa, me nego a acreditar que a vida seja assim. E pinto no meu mundo imaginário as possibilidades de fazer esse mundo ter mais cor. E terá. Terá cor como os olhos de um bebê que abre o sorriso inocente a qualquer careta que a gente faça, e emociona. Terá cor como as águas do São Francisco e o céu estrelado do sertão. Terá cor como um beijo apaixonado e terá cor como a música que escuto fazendo esse texto.

E no meio de tantas cores e tantas pedras do caminho, espero que a pedra que se faz em nosso peito quebre um pouco a ponto de fazer, quem sabe, um dia, a gente ainda se emocionar ao ler um texto que nos fale sobre essas coisas.


A Você.

Posted: segunda-feira, 11 de outubro de 2010
A você, minha reverência
Pelo choro incontido, pelas lágrimas sem medo
E pelos olhos distantes, clamando por um instante
de peles pelo corpo, de corpo pelas peles...

A você, tiro meu chapéu
Pelas palavras sinceras, pelos gritos em público
pelo sofrimento puro de quem só quer atenção...

A você, minha atenção
e um pouco de minha devoção, devidamente dada
a todos que por tua vida
um dia passarão...

A você toda minha vontade
que só vem pra quem tem saudade
do abraço soluçante
dos gritos soltados antes
pra quem pode fazer passar...

Os Olhos

Posted: quinta-feira, 9 de setembro de 2010
A gente vive olhando pro chão
cabisbaixo e em concessão
pro trabalho que não veio
pro sapato em colisão...

A gente vive olhando pra frente
esperando que não passem
que o sol quente nunca asse
a cabeça e o juízo.

A gente vive olhando pro lado
com medo de quem tá perto
achando que mais um esperto
vai pegar o teu trocado

A gente vive pedindo desculpas
por pisar em algum pé
por esbarrar em tantas ruas
com os poucos que ainda têm fé...

A gente vive tapando os ouvidos
pras zuadas da cidade
temendo que os passos
das crianças desgovernadas
seja mais um tiroteio com o povo em debandada.

A gente vive olhando pra cima
procurando a salvação
chamando com os nossos olhos
a bendita elevação

A gente vive é sem saber
pra que lado deve olhar
porque pesa nossa cabeça
porque ao lado é só "noir"

Porque em noite, em dia e manhã
nossos olhos 'tão fechados
qual Jó fechava os seus
quando via Leviatã.

A música!

Posted: domingo, 29 de agosto de 2010
Bandolins - Oswaldo Montenegro

Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos Bandolins...

E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim
Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim

Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins...

Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim

E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim...

Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim

Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos Bandolins...